segunda-feira, 6 de maio de 2013

A filosofia do bom ladrão


- Seu nome?
- M.
- Sua idade?
- 31 anos.
- Você confirma que entrou na casa e roubou uma TV, Roupas e joias? – pergunta o delegado a M.
 - Confirmo, sim senhor. – responde M., que aparenta uma tranquilidade inabalável.
- O senhor não tem vergonha na cara? – pergunta o delegado, inclinando-se e apoiando os cotovelos na mesa.
- Por que a pergunta, doutor?
- Você é um homem jovem, poderia trabalhar e fica roubando.
- Mas eu trabalho, doutor! – exclamou M. indignado - O senhor acha que é fácil ser ladrão? Não tenho horário fixo de trabalho e não recebo hora-extra; às vezes trabalho a noite e não recebo adicional noturno; corro o risco de ser preso ou flagrado pelo meu cliente e ser espancado e o senhor ainda diz que isso não é trabalho.
- Você chamou a sua vítima de cliente? – o delegado fazia uma cara de incredulidade.
 - Sim. E um cliente especial! – respondeu M. convicto - Afinal não é ele que me escolhe, mas eu que o escolho.
- Você é um grandessíssimo cara-de-pau. O adicional que você merecia era uma boas porradas. – o delegado encosta-se na cadeira.
- Não gosto de violência, doutor. – M. aparentava muita autoridade ao falar. – Por princípio, sou um pacifista. Fico indignado quando vocês da polícia ou clientes nos pegam e batem. Temos que reivindicar melhores condições de trabalho.
- E a quem o senhor vai fazer tais reivindicações? – agora o delegado voltava a usar da ironia.
- Em Brasília, ué! – o bom ladrão fala como se isso fosse as mais óbvias das obviedades. – Afinal, lá estão nossos companheiros de luta. Lá estamos bem representados! – M. parecia que ia começar um discurso, mas foi interrompido pelo delegado.
- Seus amiguinhos...
- Não! – interrompeu o bom ladrão. – A nossa relação é meramente política. Mesmo por que, filosoficamente falando, discordo das suas práticas. Eu roubo no varejo! O que roubo não fará falta ao meu cliente. Se fizer falta, não é tanto como faz para os clientes deles, pois eles roubam no atacado.       
- Estou chegando a conclusão que cara-de-pau é pouco pra você! Você é mais do que isso: você é cara de laje!  
- E o senhor um ingrato.
- Eu? Ingrato? – o delegado volta a inclinar-se, apoiando os cotovelos na mesa.
- Claro!
- Por quê?
- Sou eu que lhe dou emprego, doutor. Não apenas ao senhor, mas ao escrivão que aqui está fazendo suas anotações, - nesse momento o escrivão olha o bom ladrão, com uma cara entre incrédula e irônica - aos outros policiais, advogados, agentes penitenciários, juízes, entre tantos outros.
Nesse momento, um repórter policial entreabre a porta e escorrega a cabeça pela brecha aberta e olha para a sala. M. sorri para o repórter e acena.
- Tá querendo ficar famoso, né, pilantra? – o delegado é irônico.
- Claro, doutor! O meu sonho é aparecer na televisão. – M. tinha um ar infantil, nada parecido com a cara que fazia quando estava em contato com seus “clientes”.  
- Bom – falou o delegado, resignado – Pelo menos você daria um bom comediante.   
- O senhor acha, doutor? – Empolgou-se M.
- Não! Não acho. A sua cara de pau não tem limites. Você não pensa nas suas vítimas? – o delegado já demonstrava irritação.
 - Penso, doutor, penso. Os meus clientes são mais pecadores do que eu. Se não fossem, Deus não permitiria que fossem meus clientes...

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