quinta-feira, 26 de abril de 2012

Entre letras e cifrões


Na esteira do sucesso da Flip (a Feira Literária de Paraty) as feiras literárias viraram uma febre Brasil afora e transformaram-se numa forma dos escritores ganharem um a mais. Até aí tudo bem, afinal o mercado editorial tem que sobreviver. Mas os coordenadores da Feira Literária de Bento Gonçalves (RS), que é organizada pela prefeitura local, exageraram.  Eles acertaram um cachê de R$ 170 mil com o rapper e autor de literatura infantil Gabriel o Pensador.  Até aí, mais uma vez, tudo bem. Mas depois fecharam, alegando limitações orçamentárias, com o poeta e frasista Fabrício Carpinejar e outros escritores o pagamento de apenas R$ 1 mil por suas participações no evento.
Parece brincadeira, mas é verdade. De pronto Carpinejar, em carta aberta, cancelou a sua participação no evento. Eu faria o mesmo. Mas há uma explicação para tanta disparidade nos cachês. Com a banalização das feitas literárias, os organizadores sentem a necessidade de colocar “iscas”, para atrair grandes públicos. Gabriel é essa “isca”. A suposição é que parte do público, como migalhas que caem de um banquete, chegará até as atrações menos dotadas de “celebridade”. Esse é o caso de Carpinejar. 
Não é que Carpinejar e os outros escritores não tenham talento, nem que a literatura esteja fadada à derrota, apenas ela exige ser avaliada por outros critérios. O prefeito de Bento Gonçalves, Roberto Lunelli (PT), justifica o cachê dizendo que a presença do rapper serviria de estímulo à leitura entre os jovens. Tenho minhas dúvidas. Me causa estranheza colocar Gabriel o Pensador como um grande nome no meio literário. 

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