quarta-feira, 26 de julho de 2017

Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves

“Não nos davam comida todos os dias, e me acostumei a isso”.
Tomei conhecimento da existência de Um defeito de cor por acaso, num programa de televisão, quando o ator Lázaro Ramos falou sobre ele. E foi sem muitas expectativas que resolvi ler o calhamaço de quase 950 páginas durante as férias. Logo no prólogo fiquei sabendo pela autora, a publicitária mineira Ana Maria Gonçalves, que também foi o acaso que a levou a escrevê-lo. Aquilo que ela chama de serendipty (palavra inglesa que pode significar uma descoberta afortunada ou o acaso) fez com que uma pilha de livros despencasse na sua cabeça numa livraria e ele só conseguisse segurar um, Bahia de Todos os Santos – Guias de ruas e mistérios, de Jorge Amado. Insatisfeita com a profissão de publicitária, cansada da cidade grande e recém-separada, Ana Maria interpretou aquele episódio como uma proposta de uma nova atividade. Dali em diante, passou a se programar para se mudar para a Bahia.
“Em terra do Brasil, eles (os escravos) tanto deveriam usar os nomes novos, de brancos, como louvar os deuses dos brancos, o que eu me negava a aceitar, pois tinha ouvido os conselhos da minha avó”.
Um ano depois, lá estava ela morando na Ilha de Itaparica, onde outra serendipidade vai coloca-la em contato com dona Clara, uma senhora que trabalhava numa igreja na ilha. Na casa dessa senhora, Ana Maria descobriu documentos escritos em português arcaico que estavam sendo usados como rascunhos pelo filho mais novo. Esses documentos teriam sido retirados da Igreja do Sacramento, com a autorização do padre, para serem jogados no lixo junto com revistas velhas. Antes de pôr fogo em tudo, dona Clara lembrou que seu filho mais novo vivia procurando papeis para desenhar e levou para casa. Nesses papéis danificados pelo tempo e pelo manuseio equivocado havia referencias à história dos malês, negros escravos seguidores da religião Islâmica. Defeito de cor, publicado em 2006, é fruto do que está escrito nesses documentos. A autora inventou apenas as partes ilegíveis ou que se extraviaram. Segundo ela, foram cinco anos de trabalho, dois dos quais reescrevendo dezenove vezes o texto, com redução de quinhentas páginas.
“Na minha convivência com brancos e mulatos, vi que nem todos eram maus, que existiam os de bom coração e até mesmo os que eram contra a escravatura, mas não haveria como separar uns dos outros”.
São várias histórias tendo como fio condutor a narrativa der uma mulher chamada Kehinde, conhecida também como Luísa, seu “nome de branco”, uma escrava negra que foi raptada aos oito anos na África e mandada para o Brasil junto com a irmã gêmea e a avó de ambas. Na verdade, trata-se de Luísa Mahin, mãe do poeta abolicionista Luís Gama, vendido como escravo pelo seu pai português aos 10 anos de idade. Nos cerca de trinta anos que permaneceu no Brasil, Kehinde foi preta de companhia na Casa-Grande, trabalhadora de eito, escrava de ganho, viveu “porta à dentro” com um português (o pai de Luís Gama), conspiradora rebelde e uma negra bem sucedida vendendo guloseimas inglesas nas ruas de São Salvador. Através da narrativa de Kehinde é possível conhecer a vida dos escravos a bordo dos navios tumbeiros que atravessavam o Atlântico abarrotados de negros que seriam vendidos no Brasil; a vida nas lavouras e na Casa-Grande nos engenhos de açúcar espalhados pelo Brasil; como os negros se organizavam para resistir às condições degradantes da escravidão.
“Por que será que tenho pelo menos um arrependimento em relação a cada um dos meus filhos? Arrependimentos por falta ou por excesso de zelo, mas nunca por falta de bem querer, e é isso o que me consola”.

Em suma, Kehinde expõe ao leitor todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e religiosos do Brasil, incluindo a espiritualidade afro-brasileira, e da África do século XIX. Já madura, resolve retornar à África, onde se junta com um mulato de origem inglesa, John, com quem tem filhos gêmeos. Lá, descobre que os ex-escravos que voltaram para a África, os retornados, formaram uma espécie de classe média que se acha superior aos que nunca saíram do continente africano. Ao lado do companheiro, Kehinde faz fortuna explorando vários setores da economia africana, do comércio à construção civil. Depois de enviuvar e já octogenária, resolve retornar ao Brasil na esperança de reencontrar o filho desaparecido a anos e contar todos os seus segredos. Kahinde nos deixa inúmeras lições durante a sua saga marcada pelo sofrimento, mas a principal delas é a de que a felicidade pode estar na próxima curva. Um livro que nasceu para ser clássico.  

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída – Kai Hermann/Horst Rieck

“Todas as noites eu perguntava a meu pai, com muito jeito, se ele iria sair. Ele saía com frequência, e nós, as três mulheres, respirávamos aliviadas. Essas noites eram maravilhosamente tranquilas.”
No início de 1978, Christiane Vera Felscherinow, então com 15 anos, depunha em um tribunal de Berlim como testemunha em um processo por tráfico de drogas quando os jornalistas Kai Hermann e Horst Rieck (na época trabalhando na revista Stern) viram naquela garota franzina, frágil e delicada uma personagem interessante a ser entrevistada para o trabalho de pesquisa sobre os problemas da adolescência que estavam realizando.  Era para ser uma entrevista de, no máximo, duas horas. Durou dois meses e deu origem a Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída, publicado ainda em 1978 e transformado em best-seller imediatamente.
“É a grande diferença entre os drogados e os alcoólatras. A maioria dos drogados é sensível aos sentimentos dos outros, pelo menos quando se trata de um dos membros da turma”. 
Apesar de ter sido escrito a partir do depoimento de Christiane, o livro ganhou um ar de diário, colocando os autores em segundo plano (o que é um mérito) e comovendo os leitores por sua contundente honestidade e crueza. Segundo seus relatos, começou a fumar maconha e haxixe e consumir medicamentos como Valium e Mandrix aos 12 anos, em 1974. No seguinte, frequentando a discoteca Sound, point de viciados em Berlim, conheceu Detlev, seu namorado, e começou a consumir heroína. Necessitando da droga pelo menos três vezes ao dia, Christiane é obrigada a se prostituir na Estação Zoo para sustentar o vício.
“A maioria dos jovens passa sozinho para a heroína, quando está maduro para isso. E eu estava...”. 

Na época, o consumo de drogas pesadas entre jovens transformou-se num problema de saúde pública na Alemanha. Quase todos os colegas de Christiane morreram de overdose de heroína, entre elas Babsi, sua melhor amiga que, aos 14 anos, foi a vítima mais jovem da heroína. Christiane, mesmo não tendo o mesmo destino, foi uma vítima da droga pelo resto da vida. Após várias internações, em 1978 se diz livre das drogas, mas em 1983 é presa no apartamento de um traficante. E em várias outras ocasiões teve recaídas, inclusive perdendo a guarda do seu filho, hoje maior de idade. Recentemente publicou sua autobiografia Eu, Christiane F. – Minha segunda vida. Traduzido para 15 idiomas, Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída foi transformado em filme em 1981.  

quarta-feira, 12 de julho de 2017

O diário de Anne Frank

“Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta, mas não me arrependo. Para mim, lembranças são mais importantes do que os vestidos”.
Anne Frank era uma menina judia alemã de 13 anos que vivia com a família em Amsterdã, na Holanda. Quando o exército nazista invade o país, a família é obrigada a se esconder para não ser enviada para campos de concentração. O período em que a família fica confinada no anexo secreto no sótão da empresa do pai de Anne, de julho de 1942 a agosto de 1944, foi registrado pela adolescente em seu diário, publicado pela primeira vez em 1947, pelo seu pai, Otto Frank, único sobrevivente.  Desde então, O diário de Anne Frank se tornou um best-seller, traduzido para mais de 50 idiomas e adaptado para TV, cinema e teatro.
“Acho estranho os adultos discutirem tão facilmente e com tanta frequência sobre coisas tão mesquinhas”.
Além de ser a mais famosa história pessoal do Holocausto, O diário de Anne Frank é também o único relato de alguém que não sobreviveu à perseguição nazista. Normalmente, os relatos são de pessoas que sobreviveram para contar seus infortúnios. Mas o livro também é o relato dos dramas de uma adolescente que passou mais de dois anos confinada num espaço exíguo com outras oito pessoas, seus conflitos internos e com os outros habitantes do sótão, sua solidão e frustrações. Lendo o relato, observa-se menos uma heroína e mais uma jovem recém-saída da infância que tem seus sonhos frustrados e seus desejos roubados por uma guerra insana.
“Excelentes espécimes da humanidade, esses alemães, e pensar que na verdade sou um deles!”
Mas nem só de glórias vive o livro. São muitas as polemicas em torno do best-seller. A maior delas seria que o livro não teria sido escrito por Anne. Nos anos 50, o escritor Meyer Levin moveu uma ação contra Otto reclamando os direitos de autor do diário e a falta de pagamento pelo trabalho. Ganhou a ação e levou 50 mil dólares de indenização. Pego na mentira, Otto afirmou que não revelou os originais, apenas as transcrições feitas por Levin, por que Anne fazia duras críticas à mãe e revelava detalhes íntimos de sua relação com o jovem Peter, também confinado no anexo. Em 2007, o diário foi considerado autêntico. 
“Eu me agarro a papai porque meu desprezo por mamãe cresce dia a dia, e só por intermédio dele consigo manter o pouquinho de sentimento familiar que ainda trago dentro de mim”. 

Sendo verdadeiro ou não, O diário de Anne Frank é hoje o maior sucesso editorial do mundo, com vendas estimadas em 35 milhões de exemplares. Claro que com esses números, Anne Frank e tudo relacionado a ela virou um filão valioso. O local onde ficou escondida virou museu e as filas de visitantes se entendem diariamente das oito da manhã às nove da noite; várias versões do livro foram lançadas, até chegar a uma “definitiva” recentemente; biografias da adolescente escritas por quem conviveu com pessoas que conviveram com ela enchem as livrarias; sem contar as adaptações para cinema, teatro e TV. 

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Memórias de uma beatnik – Diane de Prima

“O que não é bom, o que é claustrofóbico e embotador, é o relacionamento normal entre duas pessoas”.
Sempre associamos a Geração Beat à nomes como William Burroughs, Allen Gisnberg e, principalmente, Jack Kerouac. São poucas as mulheres que aparecem nas inúmeras narrativas do período e, quando aparecem, são coadjuvantes, assumindo o papel de mães, companheiras ou amantes.  Até mesmo numa das mais famosas biografias de Jack kerouac, a do escritor britânico Barry Miles, já resenhada aqui, o papel feminino no movimento é pífio. Ao ler Memórias de uma beatnik, da escritora Diane di Prima, percebe-se que elas estavam presentes sim e não apenas em papéis secundários.
“O dinheiro que eu recebia por duas horas de trabalho como modelo era o suficiente para o jantar e o café da manhã seguinte, e para lavar e secar mais uma troca de roupa. E, como não tinha outras necessidades, eu me considerava bem rica”.
Escrito sob encomenda do editor Maurice Girondias no final dos anos 60, o livro só foi publicado no Brasil em 2013 e narra a convivência de uma adolescente (di Prima nasceu em 1934) com a boemia nova-iorquina nos anos 40 e 50. O Movimento Beat se notabilizou por questionar o que os jovens da época chamavam de “valores burgueses” e inspiraria o movimento hippie. Entre os “valores burgueses” questionados está a monogamia: “Viva com um único homem e você passa a ter uma reclamação contra ele. Viva com cinco, e você tem a mesma reclamação, mas ela é difusa, ambígua, indefinida”.  Em um caleidoscópio de sexo e drogas, Diane mostra como jovens transformava uma vida desregrada em arte.  
“Eu ficava com todas as fibras do corpo estremecendo e gritava na manhã calma, enquanto gozava de novo em um espasmo sem fim de liberação que me deixava oca, côncava e vazia, uma luz branca como um relâmpago explodindo em meu cérebro”.

Mas onde fica nessa narrativa a santíssima trindade do Movimento Beat? Kerouac, Burroughs e Ginsberg? Eles só aparecem nas últimas quinze páginas do livro, quando a autora narra a ocasião em que participou de uma orgia com os três e mais alguns outros personagens. O livro peca por não se aprofundar nas obras e nos autores Beats, ou até mesmo em mostrar a convivência literária da autora com outros nomes do movimento. O livro nada mais é do que uma sucessão de cenas de sexo e consumo desenfreado de drogas, o que era uma realidade na época, mas não a única realidade.        

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Doutor Jivago – Boris Pasternak

“Todo espírito de rebanho é refúgio para quem não tem talento”.
Escrito em sua maior parte nas décadas de 1910 e 1920, Doutor Jivago, do escritor russo Boris Pasternak, só foi concluído em 1956. Proibido na União Soviética por rejeitar, segundo os editores do país, os pilares do realismo socialista, o livro só foi publicado em 1957 na Itália. Para os censores soviéticos, o personagem que dá título ao livro, o poeta e médico Iúri Andreievitch Jivago, demonstra mais preocupação com os indivíduos do que com a coletividade. Com a proibição em território soviético, o livro tornou-se um sucesso no ocidente, sendo traduzido para dezoito idiomas e recebendo uma adaptação cinematográfica em 1965.
Tendo como pano de fundo a Revolução Russa de 1917, a obra conta a história do médico Iuri Jivago, um jovem descendente de uma família renomada e falida, que se cruza com a história da jovem Larissa Fiodorovna, ou Lara, de família muito pobre e que se vê envolvida nas investidas sexuais do amante da mãe. A vida de ambos é repleta de encontros e desencontros. Os dois se conhecem jovens, mas nunca se falaram, e suas vidas tomam rumos diferentes, casam e têm filhos até se reencontrarem por acaso durante a Guerra e serem finalmente apresentados. Claro que, em se tratando de um romance russo, há muitos mais personagens além do casal.
Talvez isso, mais a quantidade de lugares e a variação de nomes para a mesma pessoa (depende do grau de intimidade de quem está falando com o personagem) torna o livro cansativo. Para se sincero, o livro chato com louvor! Alias, Doutor Jivago faz jus à péssima (e injusta) fama que os clássicos são chatos. E não estou sozinho nessa! Alguns críticos literários afirmam que o romance não tem “nenhum verdadeiro enredo” e que “a sua cronologia é confusa”.  Vladimir Nabokov afirmava que a obra era "uma coisa pobre, desajeitada, banal e melodramática”. Mas ganhou o Nobel de Literatura em 1958. Como explicar? Somente a política internacional da época explica.  

quarta-feira, 21 de junho de 2017

O papa e Mussolini – David I. Kertzer

Em fevereiro de 1922, Achille Ratti é eleito papa pelos seus colegas cardeais, na décima quinta votação, e adota o nome de Pio XI. No mesmo ano em outubro, Benito Mussolini foi nomeado primeiro-ministro pelo rei Vítor Emanuel III. A igreja precisava do poder político para recuperar seus domínios e outros benefícios perdidos no século anterior durante a Unificação Italiana. Mussolini precisava da Igreja para que a população Italiana, de maioria católica, o visse como o líder a ser seguido para a pacificação do país. A história desse acordo é o tema do livro O papa e Mussolini: a conexão secreta entre Pio XI e a ascensão do fascismo na Europa, do professor de antropologia e de estudos italianos da Universidade de Brown (EUA) David Kertzer.  
Apesar das diferenças brutais entre ambos (Pio XI era erudito e devoto; Mussolini, violento e tinha aversão ao catolicismo), os interesses de ambos prevaleceram. Segundo Kertzer, “o fascismo se estabeleceu na Itália graças ao apoio do Vaticano”. Em retribuição, Mussolini restaurou todos os privilégios que a Igreja Católica tinha antes da Unificação Italiana de 1870, como a obrigatoriedade do ensino de religião nas escolas, a presença do crucifixo nas repartições públicas, isenções de impostos e até mesmo a reforma de igrejas. O Tratado de Latrão, assinado em 1929 por Pio XI e Mussolini, entre outras coisas, restitui as propriedades que a igreja tinha pedido no século anterior e cria um Estado independente dentro da cidade de Roma, o Vaticano.  
Mas enquanto conta a história desse acordo, Kertzel traça um perfil de Pio XI, um papa que tinha aversão à democracia e um verdadeiro pavor de qualquer coisa parecida com comunismo, e desmistifica alguns fatos da biografia de Mussolini. Um desses mitos é sobre a famosa Marcha sobre Roma, a manifestação fascista que teria contribuído para a ascensão de Mussolini ao poder. Sempre se falou em 300 mil fascistas bem armados praticando atos de violência contra opositores. Kertzel afirma que não passavam de 26 mil homens mal armados (alguns desarmados). O que aconteceu para que o evento alcançasse a objetivo foi a falta de vontade do rei Vítor Emanuel em combatê-los. O soberano, assim como o papa, via em Mussolini não apenas um mal menor, mas a melhor forma de combater os comunistas. 
Esse acordo dura até 1939, quando Pio XI prepara dois documentos para denunciar a aliança de Mussolini com Hitler. No entanto, o pontífice morre na véspera da leitura de um dos documentos. Só foi possível contar uma versão diferente da narrativa padrão do Vaticano sobre esses acontecimentos depois que a própria Igreja liberou, em 2006, documentos referentes ao papado de Pio XI, como também vieram a público documentos do Arquivo do Jesuítas, em Roma. A expectativa agora é que o papa Francisco libere os documentos referentes ao papado de Pio XII (1939-1958), sucessor de Pio XI, chamado por muitos de “o papa de Hitler” pelo seu silêncio com relação ao Holocausto.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

O rebelde do traço: a vida de Henfil – Dênis de Moraes

“Na minha opinião, o cartunista não pode trabalhar a serviço do Estado. Devemos ser eternas ovelhas negras”. (Henfil)
Publicado originalmente em 1996, O rebelde do traço: a vida de Henfil, do jornalista Dênis de Moraes, recebeu uma edição revista e ampliada no ano passado, vinte anos depois da publicação original. É um livro de fazer rir e chorar. Autor de personagens engraçadíssimos, como Graúna Fradinho, Henrique de Souza Filho, o Henfil, maior cartunista brasileiro, era ele próprio um personagem. Os méritos do livro não se resumem a contar a vida de um dos maiores artistas da sua geração, mas contar uma fase da história do Brasil da qual Henfil participou ativamente: a Ditadura Militar e redemocratização do Brasil, a partir de 1985.
Nascido em Ribeirão das Neves (MG), em 1944, foi um dos três filhos do casal Henrique e Maria da Conceição a nascer com hemofilia, doença pouco conhecida no País na época, o que obrigou a família a se mudar para Belo Horizonte. Foi exatamente o medo de se ferir durante as travessuras de infância (a hemofilia dificulta a coagulação do sengue) que levou o pequeno Henrique a se dedicar ao desenho. Seu trabalho como desenhista começa com os cartazes da AP (Ação Popular), organização de esquerda da qual fazia parte seu irmão Betinho, também hemofílico.

Dos cartazes para os jornais e revistas. Foi no seu primeiro emprego, na revista Alterosa, que Henfil recebeu o apelido que o acompanharia pelo resto da vida. Que o batizou foi ninguém menos que Roberto Drummond, editor da revista e responsável pela sua contratação. Mas, ao mesmo tempo em que narra os casos e conflitos, os afetos e desafetos de Henfil, o autor faz um panorama histórico dos anos 70 e 80, mostrando as organizações de esquerda que combatiam o governo militar e como a ditadura agia para reprimir os movimentos clandestinos que se infiltravam em vários setores da sociedade, entre eles o jornalismo. Henfil faleceu em janeiro de 1988, vítima da AIDS, e sua morte marcou, em um certo sentido, a morte do cartum político.